09 março 2009

Carne de boi

E o açougueiro cortou um bife do boi que morava no alto da montanha. Dona Lurdes comprou o mignon do boi para fazer um jantar especial a seus dois netinhos que se formaram no final do ano passado. Os netos já tinham 22 anos, e eram primos, não irmãos. Eles estavam terminando os estudos de psicologia. A coordenadora do curso deles tinha acabado de se aposentar depois de 30 anos de carreira. Ela reclamava que o marido não lhe dava atenção, e examinava meticulosamente cada ação e palavra do pobre coitado. Otávio era vegetariano, e sofria nas mãos de sua esposa que adorava cozinhar bife e frango. Passou anos comendo só salada. Ao menos, sua esposa comprava salada orgânica. Motivo pelo qual ele ainda era vivo e sua irmã, que era 5 anos mais nova, já estava lá no céu. Olívia só comia carne gorda, três vezes por dia. Odiava mignon. Deixava para as senhoras que queriam criar bois no alto de montanhas.

03 março 2009

A tinta que escorre

A tinta gosta de sujar. Suja vestido branco, suja mão, suja mindinho que arrasta na folha na hora de escrever. Suja pincel, suja camisa. Desbota e escorre.

Pinta muro. Pinta parede. Pinta casa. Quarto de menino vira de menina. Sala de estar vira de mal-estar. A parede branquinha vira roxa com estampa de zebrinhas e a menina certinha que morava lá precisa trocar de endereço.

Pinta clima. Pinta almas. O céu azul pintou um sorriso, um milhão deles. A noite toda escura é sombria. A luz branca das estrelas dá aquela esperança no fundo dos olhos. O verde da plantinha enche o pulmão. Vontade de viver. O azul do mar relaxa. O bege da praia relaxa. O amarelo esbranquiçado do sol relaxa e cega.

Mancha a vista. Mancha a pele. A tinta manchou a batata da perna do cara e nunca mais saiu. Ficou lá para sempre. Fez marca Indiana, fez dez estrelas, fez cara de índio inca, fez o rosto da filha. E da batata da perna do cara, foi manchando por aí. Todas as partes do corpo de todos os corpos embaixo do sol de sorrisos. Fez código de barras, golfinho, Betty Boop e aquele trecho do Raul. Fez o mapa do mundo, uma formiga, uma pulga.

E pintou palavras, em todas as línguas. Palavras diferentes, sempre diferentes. Uma palavra igual, mas diferente, porque a pele não é a mesma. Escreveu Amour e mudou tudo. A cor do sol, o clima do vermelho, a cor a parede que precisa mudar. Soprou a palavra ao ar e parou de escorrer.

13 março 2008

A sala

Era uma sala muito engraçada. Tinha teto, tinha tudo. Tinha até uma pista de dança que era usada quando alguém queria soltar a franga.

Nessa sala, tinha um motoqueiro cabeludo e barbudo que fazia barulhos, ruídos, estalos e gemidos. Tinha também mais dois motoqueiros, um sem barba e sem muito cabelo, que morava num aquário gigante, e outro que você vai conhecer depois. Tinha a moça que botava ordem na casa e que fazia falta quando estava de férias. Ela adorava tomar sorvete. Tinha um bioconsciente vegetariano. Na verdade, tinha dois bioconscientes vegetarianos. Um com um relógio dentro do estômago, o outro com o dicionário da propaganda dentro da cabeça. Tinha também três pessoas que falavam francês: um motoqueiro temperamental, uma danificada tagarela e um que sempre sorria. Sempre.

Era uma sala muito engraçada, muito bizarra, com cada tipo estranho, engraçado e diferente. Era tanta loucura, que um moleque maloca maluco não agüentou, e fugiu pra outra sala, onde ele podia fazer mais arte. Pela sala também passaram um menino-peixe, que foi fisgado pela boca, e uma mulher cheia de idéias, que foi plantar as suas em um terreno seu.

Era uma sala muito engraçada que vai ficar longe no horizonte, que vai ficar na página que acabou de virar, que vai ficar na memória e no coração de todo maluco que passa por lá.

04 março 2008

Greta Maluca

Depois da morte do cientista maluco, Greta ficou sozinha em casa, sozinha no mundo. A mãe teve uma briga feia com seu pai quando ela tinha 7 anos. Sumiu e nunca mais deu notícias. De qualquer maneira, elas não se davam muito bem mesmo. Serena, mãe de Greta, só pensava em beber. E sabe-se lá o que ela fazia quando saía pra trabalhar à noite e só voltava quando Greta estava indo para a escola.

A infância não foi fácil. Apesar de ser o xodó do papai, uma presença feminina sempre fez falta. Seu pai não tinha muito tempo pra lhe dar atenção. Ele voltava de seu emprego na fábrica de sabão e ia direto para o sótão. Quando pequena, Greta nunca subia lá. Seu pai raramente deixava. Mas, ela não se importava muito. Aquilo tinha cheiro de coisa estranha. Cheiros que ela nunca havia sentido antes.

Mas agora, ela estava velha. Velha e sozinha. Perdeu dois dedos em uma experiência do pai. E ficou com cicatrizes no rosto depois de uma pequena explosão no "laboratório". Ninguém a quis. Pobre Greta. De feia virou ranzinza. E aí, a menor possibilidade de encontrar alguém se extinguiu.

Adolescente, acompanhava as experiências do pai pelo buraco da fechadura. Com o tempo, conseguiu permissão dele para observar mais de perto. Aos 20, começou a participar das maluquices daquele cientista maluco que era seu pai.

Acabou trabalhando a vida toda na mesma fábrica de sabão onde ele havia sido funcionário. Em 2 anos, ela se aposentaria. Mas, com a morte do pai, a pobre Greta entrou em depressão e abandonou o emprego.

Velha, sozinha, feia e ranzinza. Não tinha nada na vida. Seus únicos amigos eram os 10 gatos de diversas raças, um pastor alemão e o ratinho Stuart. Greta precisava de mais do que isso. Precisava de mais atenção e carinho. Queria seu pai de volta.

O cérebro estava congelado no freezer da cozinha. Ela só precisaria disso. Preparou o laboratório, separou dois gatos e o velho pastor alemão. Dois pequenos mais um velho e um cérebro dá o quê? Um pai com três corações. Muito carinhoso e fofinho, com seu pêlo macio.

Ele articulava palavras com uma certa dificuldade. Não conseguia mais fazer experiências, mas dava muitos conselhos a Greta. Ela voltou a trabalhar. Enquanto estava fora, seu pai limpava a casa.

Quando o coração do cachorro parou de bater, Greta trocou pelo de um vira-lata que estava passando pela rua. E ela ainda tinha 8 gatos espalhados pela casa.

19 fevereiro 2008

Lil' Red 2

A pequena menina de chapéuzinho vermelho nunca teve medo de lobos. Lobo é um cão selvagem. Mas, ainda assim, um cãozinho. Lobo não é mau. E todas essas histórias que contam sobre ele não são verdadeiras. Quem contou é falsa, mentirosa e má, muito má. Quem contou fez tudo o que fez e ainda incriminou o pobre lobo. Sua essência maligna criou o mau da humanidade, a vergonha, o egoísmo. Fez a Eva morder a maçã.

Ela estava passeando no bosque colhendo frutinhos para sua vovózinha. Uma menina fofinha como ela não tem medo de cãezinhos. Mas tem medo de aranhas e cobras.

Madame Margot era seu nome. Rastejadora, dona da floresta. Por ali, não havia leões; ela era a dona da floresta. Uma garotinha mimada não poderia atrapalhar. Mulheres não gostam de rivais. Uma cobra fêmea detesta.

Andava tanto pra ir e voltar da casa da avózinha que fez dois rastros no meio do bosque. Mas ninguém podia fazer rastros! Ela é a cobra da floresta, quem faz rastros é ela! E quem aquela garotinha pensa que é ao pegar todos os filhotes de lobo para domesticar?

Mas o plano estava feito. “O dia é hoje. Vou enganar a pequena, devorar a grande, e depois a pequena também.” Chapeuzinho saiu de casa. Atrás da primeira árvore da floresta estava Madame Margot. Ela hipnotizou Chapéu. Foi até a casa da vovó e fez a refeição que não fazia havia muito tempo. Estava digerindo a carne velha e seca da vovó.

Mas, na verdade, Chapéuzinho só fingiu ser hipnotizada. Chamou dois guardas-florestais e foram todos para a casa da vovó. Cortaram a pele da sucuri, tiraram a Vó Chapéu e mandaram a pele para uma fábrica de bolsas e calçados.

E os pobres lobos domesticados não têm nada a ver com isso. Afinal, quem tem medo do lobo mau?

01 fevereiro 2008

O tamanho de cada animal

O homem, com sua vontade de ser gigante, resolveu criar bichos toy.

Primeiro, veio o puddle toy. Aquele puddle que parece filhote pra sempre. Não é nem anão, é miniatura.

Em seguida, vieram as girafas toy, e logo se transformaram em animais de estimação. Dóceis, só comem folhas. Lentinhas, não fazem muita bagunça. Mas as samambaias não sobrevivem no mesmo hábitat.

Depois, vieram os leõezinhos de tamanho de ratos. Muito engraçados. Dá pra colocar o dedo na mini bocarra que antes parecia tão assustadora. Os dentes parecem de cartilagem. São ratinhos ferozes. Muito mais que as ratazanas.

Elefantes também viraram bons companheiros. O barulho é um pouco irritante, mas não tardou para inventarem um tapa-tromba, que resolveu tudo.

No topo do mundo, sentindo-se quase seu rei, o homem percebeu que aumentar animais inofensivos – e lucrativos, diga-se de passagem – não seria de todo mal. Ovelhas! Sim, ovelhinhas ovelhonas gigantes. Lã em excesso. Muito dinheiro.

Nasceu a primeira, a segunda. A terceira comeu a cabeça de seu criador cabeludo, achando que era uma erva-daninha.

30 janeiro 2008

A Família Prosperidade

A Família Prosperidade tem 5 integrantes: Maria, João, José, Jeremias e Martinha. Cada um tem seus anseios, suas vontades.

Maria, a mãe, estudou até a 4ª série e nunca terminou o Primeiro Grau (ou Ensino Fundamental, ou Primário e Ginásio, como queira). Sua meta para 2008 é fazer supletivo e pegar o diploma de uma vez por todas. Já era a meta de 2007, mas no ano passado não deu.

João, o pai, é pedreiro. Queria ser arquiteto, mas não tem tempo – nem dinheiro – para fazer faculdade. Trabalha o dia inteiro, sustenta cinco bocas mais a bocarra de um São Bernardo. Moram em Balneário Camboriú, uma cidade em expansão. Cresce para cima, andares e andares. João está trabalhando, no momento, em duas obras. No ano que vem, quer abrir sua própria empresa de construção. Ele já tem tudo planejado, só falta o dinheiro.

José, Jeremias e Martinha, os filhos, espírito santo, amém, estão na escola. José se vangloria injustamente por já ter passado a mãe no colégio, está na 7ª série. Estuda de manhã, trabalha de tarde no carrinho de churros na frente da rua 1400. Jeremias está na 4ª série e Martinha, na 2ª.

2007 foi um ano difícil para a Família Prosperidade. Muito trabalho, muito estudo, pouco dinheiro. A empresa de João não pagou 13º. Pior que isso, está com três pagamentos atrasados. Pobre família, usou o único dinheiro que restava no último dia de dezembro para comprar camisetas amarelas.

22 janeiro 2008

A pena

A pena nasceu na asa de uma galinha d’Angola. De penugem a pena forte e bonita. Fazia de tudo, só não sabia voar. Acordava todo dia com o cantar do galo, aquele chato. Espremia-se quando a galinhazinha botava um ovo. Espichava-se quando a galinha tentava voar, sem sucesso. Um dia, a galinha virou jantar e a pena virou cocar de fantasia de índio.

08 janeiro 2008

Dona Maria

Dona Maria acorda todos os dias às 5:13. Seu despertador em forma de coruja canta por 2 minutos. Ela se levanta, toma uma caneca cheinha de café preto, lava o rosto, troca de roupa e vai trabalhar.

Às 5:47 ela sai de casa. O ônibus chega às 5:50. Ela pega mais um ônibus depois e chega no trabalho às 6:47 (ou 13 pras 7). Entra, abre as janelas, guarda sua bolsa no armarinho dos fundos e pega a vassoura, que também fica nos fundos.

Às 7h, começa a varrer, de dentro pra fora, da esquerda pra direita – que dá sorte. E aiaiai se ela encosta a vassoura no pé. Vai correndo lavar o pé na pia do banheirinho dos fundos, onde ficam a vassoura e a bolsa da Dona Maria.

Ela já tem 37 anos. E está esperando o amor da sua vida. Ele deve ser alto, ombros largos, entre 30 e 40 anos. E precisa ter uma moto. Uma moto preta. Não, preta não, que preto dá azar. Uma moto azul! Ele pode ter uns fios de cabelo grisalhos pra dar aquele charme. Ai, ai... um dia, ele aparece. Quem sabe seja aquele homem ali batendo a campainha, às 7:37.

- Bom dia.
- Bom dia, senhora.
- Senhora, não. Senhorita!
- Senhorita... Que horas abre a loja?
- Às 8h, a atendente já está chegando. É urgente?
- Não... Mais ou menos. Vou esperar aqui fora.
- Imagina. Pode entrar que eu pego uma cadeira pro senhor.
- Senhor? Moço! Sou o Leôncio.
- Leôncio, espera só um minutinho que eu vou pegar a chave lá nos fundos.

Dona Maria, que agora se sente muito mais Maria do que Dona, vai em direção aos fundos. Respira fundo. Leôncio... Até que ele é charmoso. Acho que vi uns fiozinhos grisalhos. Que moço, que nada!

- Pode sentar ali, estou terminando de ajeitar tudo.
- Obrigada, senhora.
- ...
- Senhorita! Senhorita...?
- Maria.
- Prazer, Maria.

8 horas. Onde será que está a Madeleine? Preciso abrir a loja. E o Leôncio ali, esperando, coitado. Acho que vou puxar um papo. Vai que é ele.

- Leôncio, só um pouquinho, a moça já deve chegar.
- Tomara que ela chegue logo...
- Quer um cafézinho?
- Ahm... Aceito, sim. Obrigado, Maria.

Maria, Maria! Ele me chamou de Maria! Ele lembra meu nome. Ai, acho que ele gostou de mim. Leôncio e Maria. L e M. Acho que combina.

- Aqui está o cafezinho. Passei logo que cheguei. Trouxe açúcar e adoçante. Qual você prefere?
- Os dois. Um pouco de cada.
- Que nem eu.
- É?
- Aham. Que coincidência! Essas coisas são incríveis, né!
- É... Amor!
- Amor? Nossa, Leôncio!
- Amor? A gente terminou ontem, Leôncio.
- Mas eu te amo!
- Ama ela? Mas e eu? Eu cheguei antes!
- Me ama, nada.
- Amo. Vamos conversar...
- Mas eu tô conversando com você já. Madeleine, eu tô conversando com ele.
- Maria... leva o cafezinho lá pra trás que essa coisa de misturar adoçante com açúcar faz mal pra ele.

É. Acho que L e M combinam, sim. Mas, pra Dona Maria, não foi dessa vez.

15 dezembro 2007

O negrinho

Era uma vez um negrinho sem pernas. Ele usava touca e bermuda vermelha. Um belo dia, ele ganhou uma perna e se saciou.

11 dezembro 2007

Papai Noel bateu as botas

Nas manchetes de todos os jornais do mundo, lê-se: “Papai Noel bateu as botas”, “Papai Noel descansa em paz com seus duendes”, “O trenó do Papai Noel nunca mais vai mais voltar”, “Santa Claus is gone”, “Le Noël ne retournera jamais”.

Sim, o velhinho se foi. Alguns dizem que foi infarto, afinal, o bom velhinho roda o mundo há alguns bons anos. Outros preferem acreditar que ele morreu durante um sono profundo, sem dor, sem sofrimento. Mas a melhor história não é nenhuma dessas.

Rudolph, a doce rena do nariz vermelho cansou daquela vida. A pobre coitada era sempre perseguida. Todos queriam sua foto e seu autógrafo, mas era para tirar sarro. Ele detestava aquelas máscaras de rena com o nariz vermelho com as quais as criancinhas brincavam. Por que, por que nesse mundo ele havia nascido com aquele maldito nariz chamativo?

Se não fosse aquele gordo de barba branca, o mundo nunca perceberia o quanto seu nariz era ridículo. Rudolph queria paz, queria parar de ser perturbado. Queria se mudar com sua família para Aspen e trocar de identidade. Se chamaria Marques.

Rudolph fez um plano junto com o duende Astolfo – que também não gostava do velhinho de vermelho porque este um dia pisou no pé do pobre duende, e ele teve de amputar dois dedinhos. A idéia era dar um chá de sumiço no Noel, sem que ninguém percebesse.

Primeiro, presentearam a Mamãe Noel com uma viagem ao Caribe SEM ACOMPANHANTE. Quando ela partiu, o caminho facilitou. No mesmo dia, Astolfo entrou na sala da direção para entregar ao Velhaco o relatório dos brinquedos produzidos.
– Fala, Noelzito! Tenho uma boa notícia pra você. Meu cunhado tem uma chácara lá no Pólo Sul e disse pra eu convidar uns amigos... Tem de tudo lá, ele faz criação de Pingüim Imperador e tal. E o Rudolph falou que leva a gente, nem precisamos gastar com avião. Tá tranqüilo. Sem falar que ainda faltam 2 semanas pro Natal, a Mamãe Noel tá no Caribe... Bem que você merece!
– Ho ho ho. Muito obrigado, meu bom Astolfo. Aceito o convite. Quando partimos?

Ao final do expediente, os três foram para casa pegar as malas e partiram em direção ao Pólo Sul.

No primeiro dia, se divertiram fazendo briga de Pingüim Imperador. No segundo dia, foram esquiar. No terceiro dia, foram pescar.

- Rudolph, vem cá!
- Tô indo!

A rena saiu correndo em direção a Astolfo e ao Noel. Mas, quando tentou parar, escorregou e foi descontroladamente em direção ao Bom Velhinho. Noel caiu no buraco onde estavam pescando e congelou.

Rudolph e Astolfo nunca mais voltaram ao Pólo Norte. Eles se aposentaram e abriram um restaurante numa estação de esqui em Aspen.

Mas o que ninguém sabe ainda – nem a imprensa – é que o bom velhinho que foi ao Pólo Sul e nunca mais voltou é o sósia do Noel, aquele que fazia todos os filmes de Natal. Afinal, o espírito do Natal não pode morrer. E o Papai Noel não é nem um pouco burro.

04 dezembro 2007

Visita à Torre de Babel

Era uma tarde de férias. Estudantes despreocupados estavam prontos para um passeio diferente. Chegaram à rodoviária e lá estava o ônibus com sua plaquinha “Torre de Babel”. Pedro Afonso chegou atrasado mas, correndo, conseguiu entrar a tempo.

O ônibus era estranho por dentro. Várias filas de bancos, sem passagem de uma para a outra. Alguns assentos tinham encostos. Outros, não. Pedro logo se acomodou em um dos bancos vazios, que não tinham encostos.

O motorista deu a partida e lá foram eles na viagem à Torre de Babel. Ninguém sabia onde era (quem organizou a viagem não quis contar), mas parecia ser um lugar longe, algo como a 5 horas de viagem. O ônibus pára depois de 20 minutos.
– Podem descer, chegamos. – disse o motorista.

Pedro Afonso desce e estranha. Ele estava quase certo de que antes havia uma igreja ali. E a Torre de Babel havia sido construída por cima.

Os estudantes vinham aos montes e invadiam a Torre.
– Que estranho um lugar ser construído em cima de uma igreja. – disse um dos estudantes.

Nesse instante, aparece na entrada uma mulher muito estranha, com um coque no cabelo e cara de ranzinza, olhando todos por cima. Os estudantes se espalham por todos os lugares. Um lugar muito estranho, aquele. Escadas finas e curvas iam de lugar nenhum para lugar algum. Parecia uma ilusão. Um lugar nunca visto antes. Quase um labirinto de escadas, onde o objetivo era chegar à próxima sala.

Pedro Afonso andava, andava. O passeio havia começado bem, estava divertido. Uma loucura. Bem como ele imaginava ser a Torre de Babel.

Já estavam todos ali dentro, menos o motorista. A porta de entrada se fechou. Todos seguiram para o próximo aposento. Cada um foi para um lado. Pedro Afonso estava sozinho. A mulher ranzinza parou ao seu lado.
– Vocês nunca vão sair daqui. – disse ela, com toda a tranqüilidade do mundo.

O garoto riu, como se aquilo fosse uma piada ou uma brincadeira. Ela ficou ali, olhando para ele. Pedro apagou, não se lembrava onde estava. Acordou dentro de um lago. A mulher estava na beira e dizia:
– Pode tentar nadar, pode tentar se mexer. Seus impulsos cerebrais estão bloqueados. Você não vai conseguir sair daqui.

Ele se debatia, mas não conseguia. Queria se mexer, mas se mexia errado. Tudo torto. Não saía do lugar. Que agonia! Que lugar era aquele? Onde estavam os outros?

A mulher saiu de perto. Pedro Afonso chegou à beira. Não via ninguém. Andou por ali, achou um telefone. Tentava ligar mas ninguém atendia. Será que ninguém atendia ou ele não estava conseguindo discar os números? Uma lágrima contida escorreu no canto de seu olho esquerdo. Ele suava frio.

Saiu correndo, correndo. Andou por todos os lados. Passou por grandes salões vazios. Tudo estava abandonado. Viu um outro estudante passando de um lado ao outro da porta ao lado. Tentou chamar, a voz não saiu. Tentou andar, mas o estudante andou mais rápido. Ele saiu. Pedro Afonso perdeu a esperança.

Foi até essa porta e encontrou a saída. Um alambrado de 7 metros de altura e, na frente, a rua, o motorista, o ônibus. Ele gritou, mas ninguém escutou. Olhou para cima e viu o outro estudante escalando a parede de arame. Subiu atrás. Um braço, uma perna. Eles não queriam obedecer. Nunca foi tão difícil se mexer. Conseguiu com dificuldade. Subiu ao topo. Se atirou lá de cima. Só queria sair daquele lugar.

Caiu. Tudo parou. Ele não se mexia. Abriu os olhos e viu dois pés. Subiu os olhos e viu a mulher de coque.

29 novembro 2007

A bola redonda

Era uma vez uma bola redonda. Igual àquelas que criança faz rolar no chão, aos petelecos. Igual àquela que flutua no meio do nada, junto com várias outras, numa negra imensidão.

Explodiu, esquentou, esfriou, esquentou. Ela criou vida. Circulava por aí, rodava o Universo. Era uma bola bem verdinha. Verdinha e azul.

Ficou marrom, cinza, feia. Mas é só mais uma bola redonda, entre tantas outras. Não vai fazer diferença. "Ela que se exploda", disseram os homens – ou, ao menos, pensaram.

19 novembro 2007

A vida no automático

Josef vivia a vida no automático de vez em quando. Ficava lá do alto observando tudo. A única coisa que precisava escolher era a direção para a qual seus olhos iriam olhar.

Trabalhava sem pensar, digitava sem precisar formular as frases, resolvia contas enquanto apenas olhava para elas, vagamente. Seu corpo ia até o bebedouro e bebia água quando sentia vontade. Mas ele nem sabia quais eram suas vontades. Elas eram automáticas e automaticamente sanadas.

Mas se ele não sentia as vontades do corpo, como fazia quando sentia “vontade” de não ficar mais no automático? São passos muito simples para estar ou deixar de estar no automático: Primeiro, junte seus olhos vesgueando até o nariz. Sem tirar o olho esquerdo do lugar, gire seu olho direito três vezes no sentido horário (do seu ponto de vista, literalmente). Então, junte os dois no meio novamente. Pisque duas vezes rápido. Pisque de novo e fique 1 minuto com os olhos fechados. Quando você abrir os olhos, não estará mais no comando.

E assim, Josef passou 30 anos vivendo no automático. Quando resolveu voltar a ser seu próprio piloto, piscou os olhos e morreu. É muito mais fácil viver a vida como um mero espectador.

05 novembro 2007

O pé da cadeira

O pé da cadeira tem três irmãos. Um deles é seu gêmeo. Os outros dois também são. (Mas não dele, são gêmeos entre si.) É uma família um tanto equilibrada. Humildes, não se importam em ver tudo sempre por baixo. Tampouco que os outros se sentem em cima deles.

Aquela rotina era irritante. Senta, levanta. Senta, levanta. Puxa e empurra para fazer mais uma refeição naquele restaurantezinho do Bairro da Pitanga.

Tudo era tão quadrado até o maldito cupim desfigurar a cara do seu irmão gêmeo. O mais triste era ter de assistir à cena sem poder fazer nada. Ele e os outros dois irmãos, ali, imóveis.

Pobres móveis. Não têm reação. Assim como as folhas e as raízes da floresta onde morava Laggy, a lagarta*.

*23 de novembro de 2006.

04 outubro 2007

Alguns minutos antes do Gênesis

- Precisamos construir um complexo auto-suficiente.
- Ele pode ter como base os quatro elementos: fogo, água, terra e ar.
- Boa idéia. Mas e qual será o objeto de estudo?
- Bem, podemos testar nossos robôs orgânicos. Mas, para que o objeto de estudo não saiba que está sendo estudado, não podemos interferir.
- Precisa ser um complexo auto-suficiente.
- Sim. Talvez dois grupos, um se sustenta do outro.
- Isso. O que um produz alimenta o outro.
- Um grupo fixo e um móvel.
- Exato.
- Plantas e animais. Animais podem consumir O2 e plantas consomem CO2. Cada um produz o inverso. Assim, fazemos um círculo vicioso.
- Ótima idéia. Vá anotando o nome dos elementos químicos que vamos usar.
- E para a proliferação dos dois grupos, precisamos de alguma técnica.
- Ao grupo móvel só precisamos dar um estímulo. Um pode ir até o outro. Algo que os faça sentir bem vai resolver.
- O grupo fixo vai precisar do grupo móvel.
- Podemos fazer pequenas cápsulas voadoras que transportem o elemento fecundativo de um ser móvel ao outro.
- Podem ser insetos e pássaros.
- Aham. Acho que é basicamente isso. Os grupos se proliferam e se alimentam mutuamente. Se tudo correr como planejado, podem chegar à eternidade.
- Como faremos a observação e captação de amostras para checar o andamento do experimento?
- Bases subterrâneas. E visitas aéreas. Mas... eles não podem nos ver. Precisamos deixá-los desligados de tempos em tempos. Sem fornecimento de energia continuamente. Não podemos deixar uma estrela os alimentando. Risque essa parte.
- Certo. Mas, já que são auto-suficientes,os grupos podem também fornecer energia um ao outro. Energia em pequenas porções.
- E que precisa ser renovada a cada volta do complexo ao torno da estrela. Eles se cansam e precisam desligar o próprio sistema. Então, quando estiver escuro, podemos fazer visitas aéreas.
- Ótimo. Vai funcionar perfeitamente. Vamos acertando os detalhes na seqüência.
- Só espero que eles não quebrem o complexo. Sem um dos grupos, ele não funciona.
- É melhor cuidarmos do grupo móvel.
- É.

20 setembro 2007

Odor

Era fim de tarde, hora de gente suada de trabalho pegar ônibus para voltar pra casa. E eu, nada suada, infelizmente estava no meio. Nessas horas, podemos sentir muitos cheiros, é normal. Mas, nesse dia em especial, eu podia rastrear algo diferente. Cheio de cebola. Mas, cebola, mesmo. Não cecebola, só cebola.

Eis que olho para o lado e vejo uma moça se debatendo para conseguir se manter em pé com o balanço do ônibus, que mais parece um caminhão transportando bois. Ao invés de se segurar com as duas mãos, ela usava apenas uma. Na outra, aquele pacote maldito e fedorento: Cebolitos. Que é bom, é. Mas, tudo tem sua hora. E o ônibus-cece das seis não é exatamente apropriado.

Para conseguir pegar o conteúdo fétido, ela segurava a embalagem com a mesma mão que segurava no caninho do ônibus. E com a outra, pegava umas argolinhas cebolentas. Ela comia tão verozmente que lambia os dedos após cada punhado de salgadinho. Aquilo era tão nojento, mas tão nojento, que não podia piorar. Mas, piorou.

Depois de lamber os dedos, ela segurava com a mesma mão no caninho do ônibus. Aquele caninho em que centenas de pessoas iriam segurar depois e ter contato com a baba com restos de Cebolitos. E não parou por aí. Ela não tinha sido a primeira a pegar no caninho do ônibus. Quantas pessoas não seguraram nele com a mão suja de Deus-sabe-lá-o-que?

Com a mesma mão cheia de baba de Cebolitos misturada com sujeira de procedência desconhecida, ela pegou novamente mais um punhado de salgadinho. E lambeu os dedos de novo. E repetiu isso em todo o trajeto. Quando acabou o pacote, eu já estava verde de nojo. Não queria olhar para aquela cena. Mas, era tão bizarra que eu não conseguia parar de olhar.

Ela soltou as duas mãos do caninho, amassou o pacote e jogou pela janela, na rua. Não sabia que porcos gostavam de cebola.

19 setembro 2007

Impotência

E a vontade de crescer parou. A vontade de diminuir é irrealizável. Chega uma hora em que os ramos não crescem mais. Os dias passam nas pontas dos dedos, mas é impossível alcançá-los. O jeito é correr atrás.

17 agosto 2007

O fim

Duas formigas estavam caminhando numa estrada de terra batida. Era sexta-feira, e elas haviam nascido na quinta.

Passaram por um pássaro. Ele estava distraído, e as formigas não foram vistas por ele. Mas correram mesmo assim. Vai que acontece alguma coisa. É melhor não correr riscos.

Passaram por um lago, que, na verdade, era uma poça d’água. Para atravessá-lo, usaram uma folhinha verde como balsa, e um galhinho como remo.

Passaram por cupins. Um deles viu a formiga mais bronzeada (elas são muito parecidas, mas têm suas diferenças, assim como os homens amarelos) e saiu correndo atrás dela. Mas as duas formiguinhas tinham uma tática para fugir de predadores. Uma delas ficava atrás da outra e empurrava a da frente enquanto usava as 4 patas de trás. Assim, elas aumentavam sua velocidade em 25%.

Fugiram do cupim e chegaram no maior obstáculo já encontrado em suas vidas: uma encruzilhada.

7 anos depois, elas decidiram para onde ir. Mas como as formigas trabalhadeiras vivem só 7 anos, não deu tempo para que elas continuassem seu caminho.

Quando é hora, é hora.

16 julho 2007

O começo

No começo, não havia nada. Nada além dos dois raminhos de trigo que balançavam ao vento. Os dois estavam cravados na terra árida. Suas sementes estavam secas.

Aquilo era muito triste. A solidão, o silêncio do nada ecoando, o egoísmo de cada um dos dois ramos, que não se falavam nem se ajudavam.

Uma gota de lágrima bastou para que a tristeza acabasse. A terra se nutriu. Os raminhos ganharam força. As sementes secas caíram e nasceram novas, que também caíram e geraram novos raminhos de trigo.

Depois desse dia, a solidão, o silêncio e o egoísmo nunca mais foram vistos.